CONFRARIA DO SABER

Já aconteceu…

“De um tempo ausente – Stress pós-traumático de guerra” * 15 de maio

A 15 de maio, o Tati foi espaço de reflexão e debate em torno da experiência traumática que a guerra representou para os homens e mulheres que a vivenciaram em primeira mão e das sequelas que deixou naqueles que, tendo sobrevivido, nunca conseguiram ultrapassar em definitivo essa vivência, com especial destaque para os ex-combatentes da guerra colonial.

Em plena rota pela história, a conferencista Marina Orrico Tavares revisitou as diferentes formas como o fenómeno da guerra e o comportamento dos soldados em cenário de combate foram sendo percepcionados ao longo do tempo, desde a Grécia antiga à actualidade, viajando desde o confronto corpo-a-corpo à moderna guerra “tecnológica”.

Relembrando que o fenómeno emergente do stress pós-traumático de guerra foi, ele próprio, factor impulsionador de áreas como a psiquiatria e o serviço social, a nossa conferencista abordou as várias técnicas aplicadas, em diferentes momentos, às patologias que afectavam os soldados de regresso a casa.

Já no âmbito do caso português da Guerra do Ultramar, falou-se do que se fez e do muito que não se fez em matéria de acolhimento dos nossos ex-combatentes, bem como dos dramas vividos por estes homens duplamente penalizados, quer pela vivência necessariamente traumática da guerra em si, quer pela especificidade socio-histórica da sociedade que os recebeu. Em cima da mesa, foram igualmente postas à discussão as questões políticas relacionadas com o período do pós-guerra e debatidos os direitos só muito recentemente conquistados pelos ex-combatentes.

A audiência era variada e com interesses distintos no tema e os contributos do único ex-combatente presente foram, como não podia deixar de ser, profundamente enriquecedores, uma vez que trouxe à mesa da confraria um testemunho vivo da linha da frente. Depois de uma merecida salva de palmas à conferencista, a conversa alongou-se, como é já costume, muito para além do previsto.

Se tinha interesse no tema e perdeu esta conferência, fique atento à agenda da confraria porque, depois do Verão, voltaremos com certeza a falar de estilhaços de guerra.

Há mais de 40 anos, muitos jovens portugueses partiram para terras de África para um combate que, em muitos casos, não era o seu. Num ambiente de guerra, viram-se obrigados a renunciar ao cálido temperamento, próprio de quem vive o dia-a-dia junto de quem ama, em ambiente de paz, para entrar numa rotina de medo, de morte, de luta e de ódio. A Guerra Colonial ceifou muitas vidas, mas também decepou outras e sulcou a mente destes homens que regressaram, com as escaras próprias de quem assiste a imagens de horror e de limite que só a guerra pode proporcionar.

Enquanto uns foram conseguindo recuperar, até onde puderam, de um passado que lhes toldou a juventude, outros, muitos, nunca mais se conseguiram libertar da dor e das memórias, vivendo um problema que é real, tem bases científicas, e que deve ser sujeito a tratamento: o stress de guerra.

A Conferência “De um tempo ausente – Stress pós-traumático de guerra” propõe uma abordagem geral sobre os efeitos que um ambiente de conflito extremo pode ter na mente e na vida do ser humano, com especial enfoque nas consequências da guerra colonial nos ex-combatentes portugueses.

Marina Orrico Tavares faz uma análise das origens e dos sintomas do stress pós-traumático, e apresenta o resultado de estudos sobre os efeitos da guerra em ex-combatentes, aos quais não são estranhas as referências a situações de “falta de harmonia no ambiente familiar”,  “incapacidade para um trabalho sequenciado” e “problemas laborais que muitas vezes levam a processos de despedimento”, entre diversos outros problemas que afectaram muitos soldados que estiveram no Ultramar, quando se viram enquadrados numa rotina substancialmente diferente daquela a que se forçaram a viver durante um, dois ou mais anos.

Desde a Guerra Civil Americana (1861-1865), onde as perturbações individuais foram reconhecidas pela primeira vez como um problema de interesse militar, passando pelos estudos feitos depois da Primeira e Segunda Guerras Mundiais, e da Guerra do Vietname, esta última a impulsionadora do conceito de PTSD (Post Traumatic Stress Disorder), Marina Orrico Tavares apresenta um percurso recheado de estudos e conclusões sobre um problema que ainda hoje afecta muitos homens e mulheres da nossa sociedade e uma geração que está entre nós e que vive de forma envergonhada uma consequência de algo que não escolheu.

Conferencista

Marina Orrico Tavares

Nascida em 11/06/1975, em Lisboa, licenciou-se em Política Social em 1998, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, tendo trabalhado num projecto de investigação no âmbito da inclusão social dos ex-combatentes da Guerra Colonial.

Desde aí, já trabalhou com crianças, idosos, instituições e poder local, encontrando-se actualmente a exercer funções nos Serviços de Acção Social da Universidade Nova de Lisboa, desde 2005.

Em 2009, fez Mestrado na área da Gestão e Administração Pública, tendo desenvolvido um estudo na área da inclusão social dos estudantes com deficiência e do seu acesso ao Ensino Superior.

Material de Apoio

Filmes sobre PTSD (Post-Traumatic Stress Disorder)

  • Taxi Driver (1976)
  • Coming Home (1978)
  • Apocalypse Now (1979)
  • The Deer Hunter (1979)
  • Return of the Soldier (1982)
  • Birdy (1984)
  • Born on the Fourth of July (1989)
  • Heaven and Earth (1993)
  • The Battle Within
  • Valsa com Bashir, Ari Folman (2008)

Documentários:

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This entry was posted on 17/05/2012 by .

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